A chilena declarada desaparecida na era Pinochet e encontrada viva 5 décadas depois

  • 01/08/2026
(Foto: Reprodução)
Bernarda Rosalba Vera Contardo está viva e mora na Argentina. Memoria Viva/Chilevisión A chilena Bernarda Rosalba Vera Contardo, na realidade, não era uma prisioneira desaparecida. Ela foi considerada por décadas uma das vítimas de desaparecimento forçado da ditadura de Augusto Pinochet (1915-2006) no Chile. Mas, na verdade, ela está viva e mora na Argentina. Seu paradeiro foi perdido em outubro de 1973, pouco depois do golpe de Estado no Chile. Ela se casou novamente, teve filhos, adquiriu a nacionalidade sueca e morou por anos na província de Buenos Aires. Foi ali, em um balneário de Miramar, ao sul da capital argentina, que a emissora de TV Chilevisión a encontrou em meados do ano passado. Agora, a Justiça confirmou que se trata da mesma pessoa que se acreditou estar morta há muitos anos. O relatório pericial de DNA ordenado pelo ministro extraordinário chileno para causas relacionadas aos direitos humanos, Álvaro Mesa Latorre, permitiu confirmar nesta semana o verdadeiro destino da mulher que, agora, tem 80 anos de idade. Os antecedentes científicos, correspondentes ao perfil genético e às amostras dos seus familiares, disponíveis no Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal do Chile, determinaram uma probabilidade de identificação de mais de 99,9999%, segundo a Justiça chilena. Fontes do Poder Judiciário do Chile declararam à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, que foi solicitado a ela que se submetesse a um teste e ela teria concordado. O processo teria sido realizado por meio de um tribunal de Mar del Plata, na Argentina. A versão oficial Em 1973, Bernarda Vera tinha 27 anos, era casada e tinha uma filha de cinco anos de idade. Ela trabalhava como professora de uma escola pública de Puerto Fuy, no Complexo Madeireiro e Florestal Panguipulli, na região de Los Ríos, no sul do Chile. Vera era uma militante política ativa e fazia parte do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR, na sigla em espanhol) e do Movimento Camponês Revolucionário (MCR). A Comissão da Verdade e Reconciliação foi formada em 1990, durante os primeiros meses de governo do presidente Patricio Aylwin (1918-2016). Seu objetivo era reconstruir as violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura chilena (1973-1990). Esta comissão recebeu o testemunho dos pais de Bernarda Vera, que haviam perdido seu paradeiro pouco antes do golpe de 1973. O Relatório Rettig publicou o trabalho realizado pela comissão em 1991, incluindo Vera como uma das 1.469 vítimas de desaparecimento forçado no Chile. O trabalho definiu que ela havia sido detida por militares no dia 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, na região da pré-cordilheira dos Andes no sul do país. Ela teria sido supostamente executada, segundo o relatório, ao lado de outras 15 pessoas. "Acredita-se que ela tenha sido executada na ponte de Villarrica sobre o rio Toltén, ao lado dos outros prisioneiros de Liquiñe. Ela permanece desaparecida desde o momento da sua detenção", afirma o documento oficial, publicado 35 anos atrás. "Segundo o relatado por outras testemunhas, ela se encontrava escondida em algum local do Complexo Madeireiro, pois era intensamente procurada pelas autoridades militares." "Seus familiares haviam sido informados de que ela havia sido condenada à morte à revelia no processo instaurado sobre o ataque à barreira de Neltume, do qual foi acusada de ter participado", destaca o Relatório Rettig. O documento afirma que os agentes estatais "agiram divididos em vários grupos, que se uniram no cruzamento de Coñaripe, próximo a todos os lugares onde se realizaram as detenções". "Dali, eles tomaram o caminho de Villarrica e, na ponte sobre o tio Toltén, localizada na entrada da cidade, eles os mataram e atiraram seus corpos na água." A ditadura chilena deixou cerca de 40 mil vítimas, entre desaparecidos, execuções ilegais, tortura e prisioneiros políticos Getty Images A versão alternativa As primeiras dúvidas sobre a veracidade dos fatos que rodearam o desaparecimento de Vera foram trazidas por um dos seus companheiros de militância. Em testemunho arquivado no Museu de Neltume, também publicado pela Chilevisión, o ex-membro do MIR José Manuel Bravo conta que um grande grupo de pessoas teria conseguido escapar dos militares em outubro de 1973 e fugido para as montanhas. Bravo afirmou que, entre eles, estava Bernarda Vera, cujo pseudônimo na organização era "Anita". "A Anita era uma mulher magra, mas de uma vitalidade que permitia a ela suportar a vida caminhando nas montanhas", diz o registro. "Ela precisou enfrentar todos os rigores de caminhar pela montanha, com milhares de milicos na sua cola." No seu livro De Carranco a Carrán: las tomas que cambiaron la historia ("De Carranco a Carrán: as cenas que mudaram a história", em tradução livre), Bravo revela em 2012 que eles ficaram ao lado de Bernarda Vera na montanha até dezembro de 1973. Ou seja, dois meses depois que foi notificada a suposta detenção de "Anita". Acredita-se que, mais ou menos naquela época, a jovem tenha conseguido escapar clandestinamente do Chile para a Argentina, com a ajuda de um membro do MIR, o sueco Svante Grände. Depois de passar um período no país sul-americano, segundo a imprensa local, Bernarda Vera saiu com seu marido argentino e um filho recém-nascido rumo à Suécia. Naquele país, ela recebeu seu primeiro visto e autorização de residência em 1978. Lá ela construiu a vida e teve mais dois filhos. Em 1984, ela obteria cidadania sueca e voltaria à Argentina no final da década de 1990. 'Só quer viver uma vida em paz' Bernarda Vera conseguiu escapar das câmeras no dia em que as equipes de imprensa bateram à sua porta. Mas seu filho Maximiliano conversou com eles longe do microfone. "Ela diz que sempre imaginou que este momento chegaria, que alguém a iria encontrar. Ela não irá renunciar à vida que sempre levou, é uma mulher forte e não tem medo de nada", afirmou a jornalista da Chilevisión Florencia Valenzuela. Ela encontrou Bernarda Vera e conversou com Maximiliano naquela oportunidade. "Bernarda diz que não quer falar do seu passado e seu filho reafirma que ela só quer viver uma vida em paz", concluiu Valenzuela. A busca da filha A filha que Bernarda Vera deixou no Chile tinha apenas cinco anos em 1973. A presidente da associação de Prisioneiros Desaparecidos e Executados Políticos de Valdivia, Ida Sepúlveda, conversou com a Chilevisión para a reportagem publicada em 2025. Ela era próxima de Vera. Ela declarou que eles passaram anos sem receber notícias do seu paradeiro. Eles a buscaram incansavelmente e sua filha não tinha noção de que ela estivesse viva. "Eu a procurei por muito tempo, de forma que estou certamente muito confusa", afirmou Sepúlveda. "Realmente me encontro agora em uma situação em que também não quero acreditar... que ela está viva." A equipe de reportagem que revelou o caso entrou em contato com a filha de Bernarda Vera e contou que havia encontrado sua mãe na Argentina. Agora com 58 anos, ela não quis dar entrevista, mas teria transmitido incredulidade aos repórteres. "Ela tem certeza de que, se sua mãe estivesse viva, teria entrado em contato com ela", afirmou Valenzuela na reportagem. Em contato com a BBC News Mundo, a jornalista conta que, "quando fui falar com ela, ficamos muito tempo conversando". "Foi superdifícil porque, como jornalista, eu precisava contar a ela o que estávamos fazendo, que havíamos encontrado sua mãe. E ela não acreditava." "Foi difícil porque não sabíamos o histórico familiar", prossegue Valenzuela. "O que sabíamos é que ela, como filha, havia procurado sua mãe por muito tempo." Na segunda-feira (27/7), o ministro extraordinário Álvaro Mesa confirmou a verdade para a filha, informando a ela o resultado do relatório pericial de DNA. A pergunta das autoridades chilenas é se a família tinha ou não conhecimento do destino de Bernarda Vera. A mãe de Vera recebeu em vida uma pensão de reparação a que tinha direito por lei, como familiar de uma vítima de violações de direitos humanos. E sua filha, que também se encontra em situação de incapacidade, também recebe benefícios. Patricio Aylwin foi o primeiro presidente eleito democraticamente após a ditadura de Augusto Pinochet. Seu governo criou a Comissão da Verdade e Reconciliação, que pesquisou as vítimas do regime. Getty Images Com a confirmação de que, de fato, Bernarda Vera não é uma prisioneira desaparecida, membros da direita chilena pediram uma investigação para determinar se foi configurado algum delito ou se aqueles fundos foram recebidos de má-fé. Deputados apoiadores do presidente José Antonio Kast, de direita, exigiram que o Estado recupere esses recursos e determine os responsáveis. A ação judicial sobre o desaparecimento de Bernarda Vera foi aberta em 2009, quando o Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior apresentou uma queixa pelo seu desaparecimento. Este processo foi temporariamente arquivado em 2014 porque não foi possível comprovar as circunstâncias do seu desaparecimento. Segundo o advogado que apresentou a ação judicial, Vladimir Riesco, a filha de Bernarda Vera prestou declaração, afirmando que nunca mais manteve contato com sua mãe desde 1973. Em 2025, o Plano Nacional de Busca (uma iniciativa promovida pelo governo do ex-presidente Gabriel Boric, de esquerda, para descobrir qual foi o destino dos prisioneiros desaparecidos) entrou em contato com a filha após constatar incongruências no caso de Bernarda Vera. Anteriormente, Riesco afirmou ao jornal El País Chile que a filha "sabia o que haviam dito certos amigos da sua mãe, gente antiga da época." "Mas todos eles eram testemunhas auriculares e não havia ninguém que tivesse presenciado uma detenção. Nunca na vida ela teve contato com sua mãe." "Sei que a filha sempre agiu de boa-fé, pois não tinha antecedentes e só sabia o que estava no Relatório Rettig", destacou o advogado. A aresta política e judicial A reportagem apresentada na televisão não se restringiu a indicar o real paradeiro de Bernarda Vera. Ela também informou que diversas autoridades do Estado tiveram conhecimento de incongruências relativas ao seu destino por anos e não agiram de forma diligente. Depois de conhecer os antecedentes em 2025, o caso abriu uma brecha para o então presidente Boric. O ex-policial Sandro Gaete fez parte do Plano de Busca e renunciou em seguida. Ele denunciou que as autoridades daquele governo tiveram evidências do fato em 2024 e não as levaram à Justiça. Segundo sua versão, o Estado chileno contava com informações que remontavam a 2007. O governo de Boric afirmou na época ter enviado os antecedentes oportunamente ao ministro Álvaro Mesa, que abriu a investigação que, agora, culminou com a resposta definitiva sobre o caso. O governo atual informou que irá solicitar investigações sumárias para determinar eventuais responsabilidades administrativas e notificará o Conselho de Defesa do Estado para a tomada de ações judiciais. O que permanece sem resposta são os motivos de Bernarda Vera.

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/08/01/a-chilena-declarada-desaparecida-na-era-pinochet-e-encontrada-viva-5-decadas-depois.ghtml


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